A etapa 30 vai ser das grandes: 37 quilómetros pelas colinas do sul de Espanha. Em Jimena de la Frontera entramos na natureza e, até aos últimos quilómetros perto de Ubrique, só vamos encontrar bosques, urze, flores e rochas. O despertador tocou hoje às cinco da manhã e às sete, quando o portão do parque de campismo é destrancado, pomo-nos a caminho. Ontem a hora mudou, por isso o sol nasce uma horinha mais tarde, o que aqui em Espanha é por volta das oito e meia. Agora ainda está, portanto, escuro como breu e, com a lanterna frontal na cabeça e a luzinha da bomba do colchão insuflável, caminhamos umas centenas de metros por uma estradinha de alcatrão e depressa chegamos a um velho caminho de pedra entre muretes que delimitam os pastos, bastante tomado por arbustos e árvores. No escuro, de mochila às costas, este caminho ainda é um belo desafio. O dono do parque de campismo avisou-nos para termos algum cuidado com os javalis no escuro. Nesta altura podem ter crias e ser bastante agressivos. Por isso caminhamos de ouvido atento. Com a lanterna frontal vê-se bem o reflexo dos olhos dos animais. Várias vezes vemos passar um par de 'luzinhas', mas, felizmente, nada de javalis. À medida que subimos, a paisagem vai ficando mais aberta. Mesmo à nossa frente vemos a Ursa Maior a brilhar no céu e, atrás de nós, à direita, o horizonte começa lentamente a clarear e os contornos das montanhas vão ficando mais nítidos.
Agora tudo acontece depressa. Em poucos minutos, o céu atrás de nós, à direita, começa a passar de azul-escuro a um vermelho, rosa e roxo lindíssimos. Também vemos cada vez mais e cada vez mais longe, por isso as lanternas podem ser desligadas. Olhando para sul, vemos ao longe, uma última vez, o rochedo de Gibraltar e, com a neblina do quente Mediterrâneo à frente, Marrocos. Uma vista magnífica, assim lá no alto da encosta, com as cores do sol nascente no céu. Chegamos a um portão com um caminho florestal mais largo do outro lado. Este é bem menos íngreme e seguimo-lo durante alguns quilómetros. São os melhores caminhos para andar: macios que cheguem para os pés, firmes que cheguem para ganhar algum ritmo e desafogados que cheguem para podermos apreciar o que nos rodeia. Depois de alguns quilómetros de sobe e desce suave entre rochas de um branco deslumbrante, sobreiros e urze em flor roxa, o caminho largo dá lugar a um trilho estreito pelo meio do bosque, que volta a subir a pique. Atravessamos alguns riachos, de pedra em pedra. A sombra das árvores refresca-nos do sol, que já brilha em pleno. O trilho está muitas vezes tomado por arbustos baixos, por isso não deve ser muito percorrido. Sobretudo giestas, urze e cardos. As duas primeiras conhecemo-las nos Países Baixos como plantinhas delicadas e macias; aqui parecem ter-se adaptado muito bem a condições de vida mais duras e, apesar das bonitas florzinhas amarelo-claras e roxas, estão todas cheias de espinhos e de ramos que picam. Hmm, se calhar da próxima vez é melhor vestir calças compridas neste tipo de trilhos... Ao fim de uns dez quilómetros, já fizemos a maior parte da subida. Subimos uns 500 metros e estamos agora pouco acima dos 800 metros de altitude. Nos Alpes era aí que a coisa começava, mas nesta caminhada desde Sagres é o ponto mais alto. Um pouco mais à frente fazemos uma pausa num campo e pomos a secar as lonas de chão, que ainda estavam molhadas. Depois da pausa, o trilho depressa volta a alargar. Ficamos agora um bom bocado bastante lá em cima, com vistas deslumbrantes sobre as montanhas. Embora agora esteja tudo de um verde fresco e as árvores de folha caduca comecem a rebentar, nota-se bem que aqui, durante grande parte do ano, é bem mais seco.
Rochas nuas e grandes extensões sem árvores nem erva fazem lembrar montanhas muito mais altas. Dá-lhe um aspeto surpreendentemente agreste. Até à segunda pausa, passamos de bosques de sobreiros, com árvores que ainda hoje são descortiçadas, para zonas abertas com belas vistas. Tirando um ou outro jipe de um proprietário, não nos cruzamos com ninguém. Que sossego. Aos 25 quilómetros, mesmo antes de começar a descida, fazemos uma segunda pausa com pão e sopa (numa caminhada tão longa há que cuidar bem de nós!) e pomos a tenda a secar, porque nas próximas noites, como aqui os parques de campismo são poucos e espalhados, não vamos precisar dela. A descida também é feita pelos caminhos largos e aqui e ali voltamos a passar por uma ou outra casinha. O caminho de terra dá lugar a uma estrada alcatroada, com a qual temos uma verdadeira relação de amor-ódio. Depois de tantos quilómetros, sabe muito bem não ter de olhar para onde pomos os pés, mas ao fim de umas centenas de metros torna-se bastante duro para os pés e para as articulações. Ainda assim, avança-se bem. Aos 27 quilómetros, com uns 10 quilómetros ainda pela frente, a paisagem fica ainda mais ampla e avistamos um vale grande e extenso; ao fundo, encostada às montanhas da Sierra de Grazalema, com picos acima dos 1600 metros, fica a vilazinha onde vamos dormir esta noite: Ubrique. As casinhas brancas desta cidade, o maior Pueblo Blanco, veem-se claramente, mesmo a 10 quilómetros de distância. Com os telhados de telha castanho-avermelhada sobre as paredes caiadas e as ruelas estreitas, a esta distância a vila quase parece um pedaço de rocha. As cores e as formas naturais fundem-se por completo com a paisagem. Estas vilas são brancas desde o tempo dos romanos, para manter o calor fora das casas.
O percurso volta a deixar o alcatrão para os últimos quilómetros de descida. É preciso ter cuidado no trilho estreito, cheio de pedras soltas, porque a concentração começa aos poucos a esgotar-se. Ainda uma pausa rápida para dar alguma energia ao corpo e depois seguimos. O último troço volta a subir um pouco, ao longo e por entre as casas da vila. Na parte antiga, caminhamos por ruelas brancas e estreitas e aproximamo-nos da nossa pensão. As pessoas, sem lhes pedirmos nada, já nos apontam o caminho certo, por isso não há como falhar. Chegámos! Numa ruazinha antiga lindíssima, branca, claro está, chegamos ao fim desta caminhada. A mais longa que fizemos nas 123 etapas desde que saímos de casa. Descansar um bocado, fazer umas compras, arranjar o jantar, tomar banho e depois dormir. Amanhã ficamos cá mais um dia para conhecer melhor a vila e, sobretudo, para dar descanso aos pés. Mas a região é magnífica e estamos mortinhos por continuar!











